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Mota uraniano

Autor de "Soledad en Recife", una recreación de los últimos días de Soledad Barrett, esposa del cabo Anselmo, quien fue entregado por el traidor a la dictadura. También escribió "El hijo renegado de Dios", ganador del Premio Guavira de Literatura 2014, y "La juventud más larga", una novela sobre la generación rebelde de Brasil.

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João Cabral, a poesia que serve à verdade

“Tanto o poeta quanto o prosador são responsáveis diante da humanidade pelo que eles dizem. Portanto, um sujeito que nasceu com aptidão para usar as palavras, a primeira obrigação dele é dizer a verdade”. Retirada de uma entrevista, a fala acima de João Cabral de Melo Neto se inscreve como um testemunho da vida e poesia que ele concretizou

João Cabral de Melo Neto (Foto: Acervo Familiar)

“Tanto o poeta quanto o prosador são responsáveis diante da humanidade pelo que eles dizem. Portanto, um sujeito que nasceu com aptidão para usar as palavras, a primeira obrigação dele é dizer a verdade”. 

Retirada de uma entrevista, a fala acima de João Cabral de Melo Neto se inscreve como um testemunho da vida e poesia que ele concretizou, disse, falou e escreveu para sempre. A obra que dirigiu para o coração do Brasil, do Nordeste, de Pernambuco, do mundo, é a melhor prova. A frase citada está aqui 

https://www.youtube.com/watch?v=EJRwt5-rllQ&fbclid=IwAR02CztRUHMSHGMZvHUUizaXTs36yYV2KeuBH9F22gSNBgp58tzixnxPL5Q 

São muitas ideias que se cruzam e não sei por onde começar. Enquanto melhor ordem não vem, digo que João Cabral é um poeta com dicção sertaneja do Nordeste, dicção clássica, e, no entanto, ele não veio do sertão. João Cabral  veio do Recife e da infância vivida na zona da Mata, em terras de engenho que depois virou propriedade da Usina Tiúma. Então como se fez dessa maneira? Em mais de uma entrevista, ele já declarou que recebeu uma lição estética da literatura de cordel. Menino de engenho, ou no engenho, ele mandava comprar os folhetos. Quando chegavam, lia os livrinhos primeiro em silêncio e depois para os trabalhadores, todos analfabetos, em voz alta. A experiência repetida está no seu poema Descoberta da Literatura: 

“No dia-a-dia do engenho,
toda a semana, durante,
cochichavam-me em segredo:
saiu um novo romance.
E da feira do domingo
me traziam conspirantes
para que os lesse e explicasse
um romance de barbante.
Sentados na roda morta
de um carro de boi, sem jante,
ouviam o folheto guenzo ,
a seu leitor semelhante,
com as peripécias de espanto
preditas pelos feirantes.
Embora as coisas contadas
e todo o mirabolante,
em nada ou pouco variassem
nos crimes, no amor, nos lances,
e soassem como sabidas
de outros folhetos migrantes,
a tensão era tão densa,
subia tão alarmante,
que o leitor que lia aquilo
como puro alto-falante,
e, sem querer, imantara
todos ali, circunstantes,
receava que confundissem
o de perto com o distante,
o ali com o espaço mágico,
seu franzino com o gigante,
e que o acabassem tomando
pelo autor imaginante...”

Cabe agora fazer uma distinção, mostrar uma diferença específica entre a poesia de João Cabral e a de outro gigante, Manuel Bandeira. Eu quero e devo dizer: o Recife de Manuel Bandeira é o Recife da sua infância, o mundo perdido de um recifense que partiu da cidade e guardou dela o seu tempo fundamental. 

“Evocación de Recife
 

Recife
No es la Venecia americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
No es el Recife de los Buhoneros
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Pero Recife sin historia ni literatura
Recife sin nada más
Recife de mi infancia
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
Jugamos en medio de la calle.
Los chicos gritaron:
¡Conejo, sal fuera!
¡No sale!
 

A lo lejos se oían las suaves voces de las muchachas:
Rosal dame una rosa
Clavel dame un botón
 

(De estas rosas, tantas rosas)
Debe haber muerto en capullo...)
De repente
nos longos da noite
una campana
Una persona grande dijo:
¡Incendio en Santo Antônio!
Otro replicó: ¡San José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Los hombres se pusieron los sombreros y salieron a fumar.
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.
 

Calle Unión...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Calle del sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Detrás de la casa estaba la Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Al otro lado estaba el muelle de la Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Carpincho
— Capiberibe
A lo lejos, las tierras bajas de Caxangá
Baños de paja
Un día vi a una chica desnuda en la ducha.
Me quedé quieto, mi corazón latía.
Ella se rió
Fue mi primera iluminación.
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras
 

Novenas
cabalgatas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Carpincho
— Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
Y el vendedor de rodillos de caña de azúcar
El de maní
que se llamaba midubim y no se asaba, se cocinaba
Recuerdo todas las subastas:
Huevos frescos y baratos
Diez huevos por un centavo
Fue hace mucho tiempo...
La vida no llegó a mí a través de periódicos ni libros.
Salió de la boca del pueblo en el idioma equivocado del pueblo.
El lenguaje correcto del pueblo
Porque habla portugués brasileño maravillosamente
Mientras nosotros
¿Qué hacemos?
Está haciendo el mono
La sintaxis lusitana
La vida con muchas cosas que no entendí bien
Tierras que no sabía dónde estaban
Arrecife...
Calle Unión...
La casa de mi abuelo...
¡Nunca pensé que terminaría!
Todo allí parecía imbuido de eternidad.
Arrecife...
Mi abuelo muerto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô”.
 

Diante de tal beleza, dói no coração falar de uma diferença específica da Evocação do Recife para outro imenso poema. Me consola dizer que não se trata de mostrar um nível de superioridade de um poeta sobre outro. Aqui, ressalta-se uma séria diferença. Quero e devo dizer: o Recife de João Cabral é o Recife da adolescência, da juventude, de um homem de esquerda que não foi Manuel Bandeira. Ou de um Bandeira que jamais poderia ser, devo com o coração magoado falar. E de mágoa em mágoa, o bom carrasco fere:  João Cabral de Melo Neto é o grande poeta que reflete sobre a paisagem física do Recife, para o Recife, onde todos os acidentes geográficos encarnam os marginalizados de uma sociedade de classes, bárbara, quase feudal, quase de castas. E nessa reflexão de gênio raro, ele se torna o poeta  de mais alto nível de consciência política,  social, que não se encontra em nenhum outro poeta brasileiro, no particular de uma cidade que é denúncia em seu rio. 

Onde outros veem o belo rio Capibaribe, João Cabral vê um rio cujas águas são sobreviventes degradados, que até ali nenhum poeta enxergou na paisagem que corre. O rio, para outros, era composição da beleza da cdade.  Mas para João Cabral o Capibaribe é um cachorro que atravessa o Recife:

"La ciudad está atravesada por el río."
como una calle
Se transmite por un perro;
una fruta
por una espada.
 

El río a veces me lo recordaba.
a língua mansa de um cão
ahora la triste barriga de un perro,
Ahora el otro río
de paño sucio y acuoso
desde la perspectiva de un perro.
 

Ese río
era como um cão sem plumas...

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Espada
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa....

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa o rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
poder
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que  amolece seus ossos
como amoleceu as pedras)... 

Ese río 

é espesso

como o real mais espesso.

espresso

por sua paisagem espessa, 

onde a fome 

estende seus batalhões de secretas 

e íntimas formigas”

Que grande poema! Creio, creio, não, tenho certeza que João Cabral é um poeta de nível tão alto, que assusta. Na obra de reconhecimento mundial, Morte e Vida Severina, que ele escreveu aos 34 anos, existem versos que alcançam o sublime, mas um sublime à maneira de João Cabral, pois abala com pancadas fortes qualquer sensibilidade adormecida: 

"—Señor José, maestro carpintero,
¿Y qué diferencia nos hace a nosotros?
si terminamos naufragando
¿Miseria en un brazo de mar?

 

— Severino, migrante,
Hace una gran diferencia.
Entre luchar con las manos
e abandoná-las para trás....

— Señor José, maestro carpintero,
Por favor pregunte:
Hay mucho en el barro.
¿Tu vida se está pudriendo?
y la vida que ha vivido
¿Siempre se compró en efectivo?

 

— Severino, migrante,
Soy de Nazaré da Mata.
pero tanto allí como aquí
Nunca me dieron ningún crédito:
vida cotidiana
"Lo compraré todos los días."

E canta e explica a beleza da criança que em mais profunda miséria nasce:. 

“—Y hermoso porque con lo nuevo
Todo lo viejo es contagioso.
—Bella porque corrompe
con anemia de sangre nueva.
— Infecta la miseria
con una vida nueva y saludable.
— Con los oasis, el desierto,
con vientos, calma” 

Até atingir esse cume, esse píncaro mais alto de uma poesia em qualquer lugar do universo: 

— Severino retirante,
Ahora déjame decirte:
Realmente no sé la respuesta.
De la pregunta que estaba haciendo,
si ya no vale la pena saltar
fuera del puente y fuera de la vida;
Ni siquiera sé la respuesta a eso.
Si realmente quieres que te lo diga;
Es difícil de defender.
La vida, sólo con palabras,
Más aún cuando ella es
Ésta ya la ves, Severina;
pero si no pudiera responder
A la pregunta que estaba haciendo,
Ella, la vida, le respondió.
con su presencia viva.
Y no hay mejor respuesta.
que el espectáculo de la vida:
verla desenredar su hilo,
que también se llama vida,
para ver la fábrica que ella misma,
Se fabrica obstinadamente,
Verlo brotar de nuevo como lo hizo hace poco.
en una nueva vida explotada;
Incluso cuando es tan pequeño
la explosión, tal como la que ocurrió;
Incluso cuando es una explosión
como aquella de hace un rato, frágil;
Incluso cuando es una explosión
"de la vida de una Severina." 

A vontade que dá é de dizer mais nada. Tudo mais será bobagem, enfeite de papel vulgar. Mas uma vez que não posso falar mais nada, recolhido à minha insignificância deixo o poeta em um momento flagrado por outro, Alberto da Cunha Melo. Na mesa do bar, em Olinda, Alberto me contou uma vez que foi receber João Cabral no aeroporto do Recife, levado por um amigo comum, Francisco Bandeira de Melo. E o que aconteceu? João Cabral desceu do avião e, depois enquanto olhava os montes à distância, parecia transtornado. Alberto me contou que João Cabral se apoiou em uma coluna externa do aeroporto e se pôs a delirar. Quer dizer, embriagado de poesia o poeta máximo passou a falar de cor versos que escrevera para o martírio do Frei Caneca: 

“... como será o Recife

que será? Não há quem diga.

Terá ainda urupemas,

xexéus, galos-de-campina?

Terá estas mesmas ruas?

Para sempre elas estão fixas?”

Alberto me contou e ficamos em silêncio na mesa. Não tínhamos palavras. Fenômenos assim a gente vê, ouve, escuta e guarda, para algum dia, quem sabe, lembrar. O quanto era diferente esse pernambucano que tantas vezes foi decantado como um homem frio, racional, naquele dia no aeroporto do Recife.  

E por fim e começo, saio com o Tecendo a Manhã: 

"Un gallo solo no teje una mañana:
siempre necesitará otras pollas.
De quien atrapa ese grito que él
y tíralo a otro; de otro gallo
atrapar el llanto de un gallo antes
y tíralo a otro; y otras pollas
que con muchas otras pollas se cruzan
las hebras de sol de tus gritos de gallo,
para que la mañana, de una fina telaraña,
"Que sea tejido, entre todos los gallos."

Esses versos, muito tempo depois, o Portal Vermelho fez seus e dos leitores que constroem um novo dia. Em dúvida, olhem o galo lá em cima: João Cabral canta para todos nestes cem anos. 

*Rojo https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/joao-cabral-a-poesia-que-serve-a-verdade/

*Este es un artículo de opinión, responsabilidad del autor, y no refleja la opinión de Brasil 247.