Pesquisa da Unifesp mostra agravamento da desigualdade na pandemia: população de rua cresce e renda desaba
Pandemia reduziu a renda de 87,9% da população da Região Metropolitana de SP, alvo da pesquisa, e 9% ficaram sem nenhuma renda. Confira a íntegra do estudo
Por Paulo Henrique Arantes, para 247 - Pouco ou nada se publicou a respeito da pesquisa “Desigualdades e Vulnerabilidades na Epidemia de Covid-19”, coordenada pela professora Lumena Furtado, chefe do Laboratório de Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo abrangeu bairros de classes baixa e média da Região Metropolitana de São Paulo e revela aprofundamento da vala social que alija de uma vida digna boa parcela da população.
En 2021, la población en situación de calle era 63,7% negra y mestiza, considerando las regiones encuestadas en la capital (Heliópolis, Cracolândia, Zona Leste y Vila Mariana) y en Diadema, Osasco, Guarulhos y Baixada (barrios de Saboó y Alemoa). La pandemia redujo los ingresos del 87,9% de esta población, y el 9% se quedó sin ingresos, según la encuesta.
Eis um trecho analítico do estudo: “Alguns arranjos familiares trazem ainda mais complexidade para esse momento de ampliação da falta de renda. Crianças com excesso de atividades, falta de internet, todos usando celular, levou muitas mães a fazerem um plano de internet dentro de casa, mesmo sem condições financeiras de sustentá-lo. No Esplanada, em Guarulhos, mães solo, com seus maridos presos, juntam-se e se organizam para enviar alimentos e produtos de higiene para eles, situação que gera um sofrimento adicional, ampliado pelo correio ter ficado mais caro, pelo peso do que precisam enviar e não poderem ir/visitar. Isto amplia a necessidade de fazerem mais bicos para conseguir renda suficiente para essas ações”.
La violencia de género también aumentó durante la pandemia, lo que causó, entre otros problemas, daños a la salud mental de las mujeres. No hay noticias de un aumento de los servicios de atención psicológica en las redes públicas de salud, lo cual sería obligatorio dadas las graves consecuencias del período de aislamiento social.
Assim descreve o estudo da Unifesp: “Os resultados desta pesquisa dialogam com os de outros levantamentos realizados durante o período de isolamento, em decorrência da primeira onda da pandemia de Covid-19 no Brasil. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública realizou um levantamento, conduzido a pedido do Banco Mundial, em que aponta um aumento de 431% em relatos de brigas de casal entre fevereiro e abril de 2020. Nos 12 Estados pesquisados, os casos de feminicídio subiram 22,2% de março para abril. Enquanto o aumento na média nacional já se mostrava perturbador, na ordem de 22,2%, o aumento no Estado de São Paulo foi de 41,4%. Esse aumento pode ser ainda maior se consideramos as ressalvas metodológicas de que os casos de violência doméstica são subnotificados e de que há problemas de enquadramento na classificação das ocorrências de feminicídio. Trata-se, portanto, de um fenômeno sensível e com lastro histórico no país”.
Según la psicóloga Lumena Furtado, «la pandemia no se siente de la misma manera en las distintas poblaciones. Quienes tuvieron acceso seguro a la cultura y al ocio, por ejemplo, se vieron mejor».
Nada que a realidade brasileira já não contemplasse, só que agravado. Para confirmar, a Unifesp também verificou “maior sobrecarga feminina no trabalho doméstico e nos cuidados com a família; aumento do nível de estresse, cansaço mental, sofrimento, uso de medicamentos e drogadição; aumento do preço e dos gastos com alimentação e gás de cozinha, levando a redução e espaçamento das refeições (62% reportaram estar se alimentando menos do que o necessário, sendo que 31% só fazem duas refeições ao dia); mudança da forma de abordagem e da violência policial (...)”.
O mais trágico do capitalismo em voga – o mesmo que “derrotou” o socialismo – é seu caráter global, e nesse ponto deixamos a Unifesp de lado e vamos à organização não-governamental Oxfam, que elaborou um aprofundado estudo a ser apresentado na edição de 2022 do Fórum de Davos, que acontece em maio. As equipes da ONG trabalharam durante dois anos à sombra da pandemia.
Alguns dados que sintetizam a alentada pesquisa da Oxfam, intitulado “A Desigualdade Mata”: entre 2020 e 2021, a riqueza dos 10 homens mais ricos do mundo dobrou, enquanto a renda de 99% da humanidade diminuiu. A fortuna de 252 homens supera a riqueza combinada de todas as mulheres e meninas de África, América Latina e Caribe, que somam 1 bilhão de pessoas. Desde 1995, o 1% mais rico do globo acumulou quase 20 vezes mais riqueza do que os 50% mais pobres.
Não há novidades, mas confirmação de que o mundo no Século XXI continua sendo palco de uma sinistra peça protagonizada por explorados e exploradores.
