Síntese econômica
O ano de 2012 apresentou algumas evoluções na forma de conduzir a política econômica, e sai marcado pela guerra institucional contra os juros altos
Felizmente, a ciência econômica é extremamente dinâmica, complexa e integrada. Graças a isso, seus acontecimentos facilmente preencheriam páginas e páginas detalhando uma retrospectiva de 2012. Governos foram eleitos, chefes de estado perderam seu status, planos de salvamento econômico não saíram do papel, abismos fiscais vieram à tona e um emaranhado de denúncias contra o desperdício do dinheiro público estiveram presentes nas manchetes dos jornais.
Cortes de gastos públicos, clamor por mais investimentos produtivos, disputas societárias por grandes conglomerados e brigas em cortes arbitrais, também marcaram a pauta de notícias econômicas. Estados e municípios em dificuldades devido à baixa arrecadação também estiveram presentes nos destaques jornalísticos.
Como não temos a memória nem o espaço para detalhar todos os acontecimentos com o devido mérito, gostaria de imediato pedir desculpas por qualquer fato econômico relevante que fique de fora deste texto.
Terminamos o ano com a certeza de que o governo federal assumiu o papel indutor de forma aberta, sem meio termo. Dilma Rousseff admitiu suas vocações e suas vontades, escancarando sua intenção de interferir na economia através de empresas estatais, sendo elas novas ou já em funcionamento. Empresas de planejamento, de logística e outras funções foram recriadas ou redefinidas. O pretexto, como sempre, é tentar garantir o melhor funcionamento do mercado e o acesso a todos. A ideia é boa, mas o meio de se fazer é ruim.
Neste caminho espinhoso da criação de estatais, o governo federal parece ter entendido e reforçado que o jogo político não deve passar pelos cargos de primeiro escalão das empresas chaves para o crescimento econômico. Leia-se neste momento o nome de Petrobrás e Graça Foster. Amargando dificuldades operacionais e um relaxamento junto aos contratos de fornecedores, nossa maior estatal se viu frente a um cenário hostil, com redução nas margens operacionais e necessidade de uma guinada operacional. Para tal guinada, Dilma nomeou um nome tecnicamente forte e com ótimos conhecimentos da empresa. Os resultados ainda não apareceram, mas espero sinceramente que a colheita de bons números será boa e em breve.
Além desta renovação das indicações políticas, lembro que nossas agências reguladoras estão carentes de uma renovação institucional, eliminando os fardos políticos e parciais por agentes que efetivamente pleiteiem o interesse nacional.
O ano de 2012 no mundo teve como destaque a eleição estadunidense, que a priori foi pintada como trágica e complexa para os Democratas, mas que acabou por confirmar uma renovação de mais 4 anos na confiança depositada a Barack Obama.
O cenário econômico tirou e balançou muitos eleitores, mas a confirmação de que o problema não se restringe apenas ao governo de Washington suavizou o descontentamento com Obama. Outro ponto a se destacar é a mudança do perfil populacional que influenciou nos valores sociais na hora da votação. Menos radicais e tradicionalistas, o eleitorado estadunidense transita e opta por ideias, e não mais apenas por tradições cegas e irracionais.
Se Obama nos 4 primeiros anos lutou contra as dívidas dos cidadãos estadunidenses, agora, a briga é com o déficit entre receitas e despesas que assola o país. Carente de uma política econômica incisiva e de forte resultado, o governo dos EUA precisa aquecer a economia interna e ajudar o mundo a sair do "esfalecimento econômico".
As barreiras orçamentárias são gigantescas, e sua transposição está vinculada diretamente a retomada do comércio mundial, que, pelo lado europeu mantêm-se numa inércia preocupante. A letargia para a tomada de posição e ação estratégica preocupa a qualquer cidadão, por mais ortodoxo que seja. A decepção francesa com a ventilada mudança de rumo com Hollande, apenas se acentua, e a China, mesmo com uma taxa de crescimento acima dos demais países, esforça-se para fortalecer seu mercado interno, gigantesco, diga-se de passagem.
Angela Merkel mantém a mão de aço nas rédeas econômicas e impõe restrições as nações que apenas se deleitaram com o bônus do crescimento. Cobra-se agora a fatura do desgoverno social e político.
Retornando ao Brasil, entra ano e sai ano, ainda não conseguimos uma solução definitiva para os problemas de aeroportos, portos e ferrovias. A privatização para os aeroportos, portos e ferrovias precisa seguir seu caminho, e cabe ao governo federal reforçar as ações de regulação, mas sem interferir nos contratos e na relação de confiança que precisa existir entre as partes.
O respeito aos contratos é fundamental para que o horizonte de crescimento da economia permaneça o mais límpido possível. A luta do pré-sal e seus royalties estão longe do fim, mas o que podemos garantir é que há uma disputa muito forte para estabelecer as bases de algo ainda não alcançado. Briga-se com o resultado, mas esquece-se do caminho a ser percorrido.
Além disso, confirmamos a percepção econômica de que estratégias pontuais não conseguiram romper em muitos casos o front da boa vontade da equipe econômica, culminando em resultados isolados. É de conhecimento de todos os recordes alcançados pelas vendas dos veículos novos, porém, não atingimos na mesma proporção uma redução nas taxas de juros que permitam o acesso de forma mais digna e justa.
A perda da confiança do empresariado frente a evolução do cenário econômico também merece destaque, pois alguns empreendimentos se perderam nesse emaranhado de decisões erradas tomadas pelo governo e insegurança (sutil) jurídica. O governo precisa incentivar a elevação da oferta através de incentivos produtivos, melhoramento das condições competitivas e desoneração produtiva, de forma integrada. Reformas microeconômica foram até esboçadas ao longo do ano, mas mais uma vez, foram esquecidas e deixadas ao relento.
Enfim, o ano de 2012 apresentou algumas evoluções na forma de conduzir a política econômica, e sai marcado pela guerra institucional contra os juros altos. Algumas medidas de incentivo a produção foram tomadas, tiveram resultados positivos, mas ainda não contemplam um grupo estratégico integrado de ações econômicas. Os agentes privados precisam das garantias e da confiança institucional de que seus investimentos enfrentaram um cenário previsível.
As carências estruturais ainda são nossos gargalos, mas movimentos de privatização parecem ter encaminhado, mesmo que lentamente, um horizonte positivista de crescimento econômico.