Mídia monopolista incita permanentemente a violência contra os excluídos, diz jurista
O filósofo e escritor Marco Weissheimer, escreve uma análise para o jornal Sul21 em que detalha a posição do jurista argentino, Eugenio Raúl Zaffaroni, em recente conferência realizada em Porto Alegre; Weissheimer destaca o que Zaffaroni, que foi ministro da Suprema Corte argentina, pontua como dilema da modernidade latino-americana: a incitação contra os excluídos patrocinada pela imprensa monopolista
247 - O filósofo e escritor Marco Weissheimer, escreve uma análise para o jornal Sul21 em que detalha a posição do jurista argentino, Eugenio Raúl Zaffaroni, em recente conferência realizada em Porto Alegre. Weissheimer destaca o que Zaffaroni, que foi ministro da Suprema Corte argentina, pontua como dilema da modernidade latino-americana: a incitação contra os excluídos patrocinada pela imprensa monopolista.
Leia trechos do artigo de Marco Weissheimer:
"A questão democrática e a midiatização do processo judicial no Brasil foi o tema central do debate que lotou o salão do Hotel Continental, em Porto Alegre, na noite de quinta-feira (2). O responsável pela lotação do espaço foi o jurista argentino, Eugenio Raúl Zaffaroni, principal conferencista da noite. Ministro da Suprema Corte Argentina de 2003 a 2014 e diretor do Departamento de Direito Penal e Criminologia na Universidade de Buenos Aires, Zaffaroni, desde 2015, é juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, além de ser vice-presidente da Associação Internacional de Direito Penal. E a situação do Direito Penal na América Latina foi um dos principais temas abordados no evento promovido pelo Instituto Novos Paradigmas (INP), que vem promovendo uma série de encontros no Brasil e no Exterior para debater a crise do estado democrático de direito.
No atual contexto de avanço do estado de exceção, “o senhor representa o Direito e a Razão”, disse Tarso Genro, presidente do conselho programático do INP, ao apresentar o conferencista da noite. Zaffaroni falou sobre este cenário, destacando o papel da mídia e do sistema penal como um todo na construção de uma cultura punitivista na sociedade que, para ele, representa uma séria ameaça à democracia e à segurança das pessoas. “Todos temos experiências de condenações midiáticas, casos onde a condenação vem antes do devido processo penal. No meu país, os juízes têm medo da mídia. Hoje, na Argentina, há juízes sendo perseguidos pelo conteúdo de suas sentenças. É a primeira vez que vejo isso acontecer desde que retornamos à democracia, em 1983”, relatou."
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Para o magistrado argentino, há hoje, em praticamente toda a região da América Latina, um monopólio midiático responsável pela construção de uma visão única da realidade, o que é incompatível com a democracia e com uma sociedade plural. O que vivemos em nossa região, assinalou, são monopólios midiáticos com um discurso único que alimenta uma cultura punitivista que acaba contaminando toda a sociedade. 'No México, a mídia faz um discurso racista dizendo que os mexicanos são historicamente violentos. Nos países do Cone Sul, a mídia dá grande ênfase ao noticiário policial. Essa mídia monopolista está permanentemente incitando a vingança e a violência contra uma classe, a dos excluídos. O estereótipo do criminoso entre nós é o adolescente de bairros precários'."
