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Esquivel: "Papa não foi cúmplice da ditadura"

Prêmio Nobel da Paz argentino, Adolfo Pérez Esquivel divulga mensagem sobre a relação do papa Francisco com a ditadura argentina: "Não considero que Jorge Bergoglio tenha sido cúmplice da ditadura, mas acho que ele não teve coragem de acompanhar a luta pelos direitos humanos nos momentos mais difíceis"; papel do novo pontífice na última ditadura argentina é posto em questão desde que ele foi escolhido para comandar a Igreja Católica

Esquivel: "Papa não foi cúmplice da ditadura"

247 - A eleição do papa Francisco para comandar a Igreja Católica chamou atenção quase que automaticamente para seu passado, com destaque para seu papel durante a última ditadura argentina (1976-1983). Nesta quinta-feira, após conceder um entrevista à britânica BBC (reverberada pelo jornal Clarín) dizendo que Jorge Bergoglio não tinha vínculos com a ditadura, o Prêmio Nobel da Paz argentino Adolfo Pérez Esquivel divlugou uma nota para deixar seu ponto mais claro.

O ativista argentino diz que não considera que "Jorge Bergoglio tenha sido cúmplice da ditadura", mas diz achar "que ele não teve coragem de acompanhar a luta pelos direitos humanos nos momentos mais difíceis". Leia a íntegra da mensagem abaixo:

Os desafios do primeiro papa latino-americano

Celebramos a nomeação do primeiro papa latino-americano na história da Igreja Católica e sua escolha do animador nome Francisco para levar adiante seu período papal.

Esperamos que possa trabalhar pela Justiça e pela paz além das pressões e interesses das potências mundiais. Esperamos que possa colocar de lado a desconfiança do Vaticano para a proeminência dos povos na sua libertação. E também incentivar transformações sociais que vêm se processando na América Latina e em outras partes do mundo, com a ajuda de governos populares que tentam superar a noite do neoliberalismo.

Esperamos que tenha a coragem de defender os direitos do povo contra os poderosos, sem repetir os erros graves e os pecados que teve a Igreja. Durante a última ditadura na Argentina, os membros da Igreja Católica não tiveram atitudes homogêneas. É indiscutível que houve cumplicidade de boa parte da hierarquia da Igreja no genocídio perpetrado contra o povo da Argentina, e ainda que muitos tenham se esforçado com "excesso de prudência" para libertar os perseguidos, foram poucos os pastores que com coragem e decisão assumiram nossa luta pelos direitos humanos contra a ditadura militar. Não considero que Jorge Bergoglio tenha sido cúmplice da ditadura, mas acho que ele não teve coragem de acompanhar a luta pelos direitos humanos nos momentos mais difíceis.

Estou viajando para a Itália para celebrar mais um aniversário do martírio de Dom Arnulfo Romero, um pastor conservador que diante da repressão em El Salvador fez seu caminho de Damasco para a cidade e deu a vida pela Justiça e pela paz. Espero também que a escolha do nome de Francisco, um dos santos mais importantes da Igreja, se expresse em testemunhos de opção e defesa dos pobres contra os poderosos e na defesa do meio ambiente.

Francisco I não herdou uma cadeira do trono imperial, mas a humildade de um pescador. Por isso, esperamos que não se esqueça das palavras do bispo mártir argentino, Monsenhor Enrique Angelelli, quando disse que "devemos ter um ouvido no Evangelho e outro na aldeia, para saber o que Deus nos diz."

Paz y Bien
Adolfo Pérez Esquivel
Premio Nobel de la Paz