O principal inimigo de Cristina Kirchner
A "cruzada" dos Kirchner não é contra os "mentirosos da mídia", e sim contra aqueles com visão "independente", mesmo que dentro desse balaio tenha muitos oportunistas
A Argentina novamente ganha importância no noticiário regional por um aspecto negativo. A polêmica Lei de Mídia deve entrar em vigor no próximo dia 8. Como jornalista, sei bem dos interesses obscuros dos grandes grupos da área espalhados pelo globo. No país vizinho, não é diferente.
Porém, é de uma ingenuidade monumental que "intelectuais da esquerda" comprem a versão da Casa Rosada de que a medida é para "democratizar os meios de comunicação". As piadas de mau gosto realmente não têm fronteiras.
A briga entre o clã Kirchner (no poder desde 2003) e a maior empresa de mídia do país começou em 2008, quando o Clarín, o maior periódico da Argentina até então apoiador das políticas de Néstor e Cristina, ficou ao lado dos ruralistas no episódio em que o governo resolveu aumentar os impostos de exportação para o setor. A partir daí, a "guerra" estava declarada.
Antes com informações privilegiadas, os jornalistas do conglomerado midiático não conseguem mais entrevistas com ministros de Estado e são alvos de agressões verbais por parte de militantes governistas. Executivos da empresa frequentemente recebem "visitas" da Polícia Federal local. Além disso, a nacionalização da Papel-Prensa, a maior companhia fornecedora de papel-jornal da Argentina (da qual o Clarín era acionista majoritário), dificultou as operações do "inimigo" dos Kirchner.
Em março do ano passado, época em que a poderosa central sindical CGT estava ao lado de Cristina, caminhoneiros liderados por Hugo Moyano (presidente da CGT) chegaram a estacionar suas "máquinas" em frente à gráfica do periódico, que deixou de circular pela primeira vez em seus 65 anos de vida. O jornal deu o troco na edição seguinte, quando foi às bancas com a capa totalmente em branco.
Com a validade da Lei de Mídia, o Clarín vai perder muito espaço na Argentina. A partir do dia 8, grupos de comunicação não poderão ter na mesma região canais de TV aberta e a cabo. Terão que se desfazer de um. O "novo" Clarín não poderá ter mais de 24 licenças de TV a cabo e a cobertura de sua área não poderá ultrapassar 35% do território portenho. Somente o canal estatal, a Igreja Católica e as universidades federais terão espaço em todo o país.
Os anúncios estatais nos jornais da "oposição" despencaram desde 2008. Agora, veículos "oficiais", como o Pagina 1/2, estão nadando em verbas governistas.
A "cruzada" dos Kirchner não é contra os "mentirosos da mídia", e sim contra aqueles com visão "independente", mesmo que dentro desse balaio tenha muitos oportunistas. Como em todas as partes do mundo.