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Faz de conta que estamos brigados

Se Joaquim Barbosa ganhou o apelido de Batman, o Justiceiro, o procurador-geral da República Roberto Gurgel pode ser visto como o policialesco Comissário Gordon; nem sempre ambos concordam, mas convergem sobre o ponto principal; tal como agora, quando Barbosa diz que a culpa pela absolvição de Duda Mendonça é de Gurgel e este afirma, sem reclamar, que não se considera responsável pela sentença

Faz de conta que estamos brigados

247 – Ao longo de todo o julgamento da Ação Penal 470, o procurador-geral da República Roberto Gurgel teve no relator Joaquim Barbosa um ótimo solista de sua partitura acusatória. Seguindo desde o início até mesmo a estrutura da denúncia formulada por Gurgel, Barbosa cobriu o trabalho de elogios enquanto descarregava seu senso de justiça sobre a grande maioria dos réus do chamado mensalão. Até que, entretanto, na semana passada, o relator não conseguiu que a maioria de seus pares o acompanhassem na condenação do publicitário Duda Mendonça. Suas baterias, então, voltaram-se diretamente contra Gurgel.
- Eu talvez reformule meu voto para que o Ministério Público aprenda a fazer a denúncia de maneira mais explícita, desferiu Barbosa, sem nenhuma lembrança dos momentos anteriores. Houve ações claras de Duda Mendonça no sentido de realizar o crime [de lavagem de dinheiro]" disse Barbosa.
Com a culpa sobre seus ombros, Gurgel deu nesta terça-feira um troco bem mais polido a Barbosa.
- O Ministério Público não se considera, de forma alguma, responsável pela absolvição", disse Gurgel no intervalo da sessão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) desta terça ao comentar as críticas feitas na segunda pelo relator do processo, ministro Joaquim Barbosa. "Eu acho que as críticas que se fizeram à denuncia não procedem, mas repito: o procurador-geral tem o mesmo respeito pelas decisões absolutórias que tem pelas condenatórias", arrematou.
Absolvido por sete votos a três, Duda foi beneficiado pela falta de provas em relação ao chamado crime antecedente à lavagem de dinheiro – qual seja, ter conhecimento da origem ilícita dos recursos. Barbosa argumentou que o crime de evasão de divisas por parte do grupo de Marcos Valério e da cúpula do Banco Rural seria o crime antecedente necessário para caracterizar a lavagem de dinheiro por parte de Duda Mendonça e Zilmar. Mas não encontrou na denúncia de Gurgel qualquer elemento para dar o salto sobre Duda Mendonça e sua sócia Zilmar Fernandes. Não, ao menos, de modo a convencer seus pares.
Não há, no entanto, com o que se preocupar quanto as divergências pontuais entre Barbosa e Gurgel evoluírem para uma verdadeira briga. Apesar do tom áspero do magistrado, que, de resto, ele vem usando durante todo o julgamento, egresso do próprio Ministério Público Barbosa tem alinhamento ideológico com Gurgel. Tal qualo justiceiro Batman e o chefe de polícia de Gottham City, o comissário Gordon, eles podem discutir, mas concordam integralmente no geral.