Negação da violência
Atribuir a violência no Estado a uma suposta falta de fiscalização nas fronteiras, como fizeram o governador e seu secretário, é manipulação fora de questão diante da situação de calamidade que estamos vivenciando
A explosão de violência em São Paulo, marcada pela morte de policiais militares, toques de recolher em bairros periféricos e execuções suspeitas de civis, não para de bater recordes. Os dados são tão alarmantes que faz parecer que vivemos uma guerra civil velada.
Pelos números contabilizados até agora, aproximadamente cem pessoas foram mortas em 20 dias na capital e Grande São Paulo. Desde o último domingo já foram mais de 50 mortes. De acordo com o balanço divulgado esta semana pela própria Polícia Militar, 86 policiais militares foram mortos neste ano, sendo que 37 deles “com características de execução”. Mas esse número pode ser maior. Dados não oficiais indicam que morreram ao menos cem policiais no Estado em 2012, apenas cinco deles durante o trabalho.
Dados do Sistema de Informações Criminais (Infocrim) computados até a tarde do dia 31 apontam registro de 145 homicídios na capital em outubro, crescimento de 86% em relação ao mesmo mês do ano passado. O recorde já havia sido quebrado em setembro, com 135 homicídios. Ao todo, foram assassinados em todo o Estado mais de 3.300 cidadãos neste ano. Só na capital, até setembro, foram 919 homicídios.
A escalada da violência estarrece a população porque deixa patente a existência de uma guerra nas ruas, ao que tudo indica, protagonizada por grupos de extermínio e o crime organizado. Estarrecem também os discursos do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e de seu secretário da Segurança, Antônio Ferreira Pinto, discrepantes e incapazes de encarar os números e os relatos da violência por toda a cidade e Região Metropolitana. No meio do fogo cruzado de discursos e violência, está a população, especialmente a dos bairros mais pobres.
Ao negarem os toques de recolher supostamente decretados por criminosos, confirmados por comerciantes e moradores dos bairros de Aricanduva, na Zona Leste, Brasilândia, na Zona Norte, Pirituba, na Zona Oeste, Campo Limpo, na Zona Sul, além de regiões de Santos, Osasco e outras cidades da Grande São Paulo, as principais autoridades do Estado para a área negam à população até uma explicação digna do que está ocorrendo.
Pelo menos agora admitem que policiais militares estão sendo atacados por ordem de facções criminosas, informações identificadas pelos serviços de inteligência das polícias Civil e Militar. Mas, também, como negar a relação entre os crimes, diante da lista com nomes de policiais marcados para morrer obtida pelo Ministério Público do Estado, e das suspeitas, apuradas pela promotoria, de que há grupos de extermínio e milícias formados por policiais atuando para revidar os ataques?
Parece que estão recobrando o senso de realidade só para assumir o óbvio. As declarações oficiais, que dão conta das mortes de vários responsáveis pelos ataques a policiais, comprovam a ligação do fato com as execuções diárias de criminosos. Negar a situação com um discurso inconsistente e inverídico —o de que em São Paulo “a violência está caindo, a polícia está na rua e os bandidos na cadeia”— é desviar de um problema de enorme gravidade e escarnecer do sofrimento da população.
Atribuir a violência no Estado a uma suposta falta de fiscalização nas fronteiras, como fizeram o governador e seu secretário, é manipulação fora de questão diante da situação de calamidade que estamos vivenciando. O governo do Estado precisa assumir o que está acontecendo e reconhecer que toda a sua política de segurança pública —que não é nova, diga-se— e toda cúpula que a comanda precisa ser mudada.
Talvez a aceitação da ajuda federal seja um primeiro passo importante, ainda que, inicialmente, o governo do Estado tenha afirmado inveridicamente que a ajuda não havia sido oferecida. O governo federal reiterou sua disposição em auxiliar no combate à violência e ficou acertado que, juntos, elaborarão um plano de segurança pública integrado entre as esferas estadual e federal, a ser delineado em reunião na próxima semana. É um alento, pois, como já afirmei diversas vezes, sem uma ação integrada com os prefeitos e com o governo federal não vamos a lugar nenhum.
Afinal, negar a violência, enquanto comerciantes e escolas são obrigados a fechar as portas, é brigar com a realidade. Assim como é grave o governador dizer que o alto índice de letalidade de seu batalhão, apontado após ação da Rota que resultou em nove suspeitos mortos em Várzea Paulista (SP), deve-se à reação dos suspeitos —a frase de Alckmin foi “quem não reagiu está vivo”.
Há fortes evidências de que a violência que eclode nesses dias tem vínculos estreitos com as estruturas não desmontadas e responsáveis pelos ataques de maio 2006, que difundiram pânico e insegurança ao povo. O trabalho que não foi feito precisa começar o quanto antes, é cada dia mais urgente!
Por isso, é preciso parar de tapar o sol com a peneira, assumir os erros e trabalhar para devolver à população um de seus direitos mais básicos: o de ir e vir com segurança.
José Dirceu, de 66 años, es abogado, exministro de la Casa Civil y miembro del Directorio Nacional del PT.